Mudança de Qualidade


“Navegar é preciso, viver não é preciso” já dizia o poeta. É justamente esta imprecisão que rege a dinâmica da vida, com sua imprevisibilidade, sua inconstância e seus fluxos multidirecionais que nos arrastam em momentos tempestuosos e nos embalam quando em maré mansa. Se precisa fosse, a vida não teria tantas cores e nuances, nem seria tão necessário nos prepararmos enquanto marinheiros para aprendermos a conduzir nosso barco pelo mar da vida em direção ao porto seguro de nós mesmos.

Sim, reconhecer a impermanência e a mutabilidade própria do que chamamos viver é sem dúvida o caminho para desapegar-se do que é velho, estagnado, ultrapassado, dentro e fora. Ora, somos forçados por essa força vital a promover mudanças a todo instante, nos adaptando à realidade em nossa volta, desde crianças, criando estratégias para sobreviver em um mundo hostil. Tais mudanças, ainda que necessárias, muitas vezes acabam se tornando prisões nas quais o indivíduo se enreda tão profundamente que pode passar uma vida inteira procurando novamente o seu norte valendo-se de uma bússola danificada, que aponta para outras direções que não aquela que o libertaria.

Trata-se pois, não apenas de mudar, mas de escolher mudar de forma consciente e ser responsável pelas consequências que toda mudança pode trazer. Essa é a mudança de qualidade, na direção correta, em busca da nossa realização. Não é uma tarefa fácil desconstruir hábitos, crenças, padrões de comportamento arraigados, que muitas vezes são confundidos com “o meu jeito de ser” ou que parece “fazer parte da minha natureza” e, justamente por serem tão profundos passo a acreditar que sou efetivamente assim e, por isso, não tenho como mudar. Mas também não é tão difícil, uma vez que o tamanho da dificuldade é o mesmo da facilidade, ganhando força aquele em que nós mais investimos nossa energia.

Essa talvez seja uma das grandes chaves do Coaching que trabalha no sentido de focarmos a atenção no positivo, na facilidade, na busca da transformação. Ao invés de nos perdermos eternamente vasculhando as galés da nau perdida – o que em grande medida é fundamental para que tenhamos o amadurecimento necessário para superarmos as armadilhas do ego – podemos mirar para o horizonte, sentir o vento impulsionando o barco e o sol clareando o dia (ele sempre esteve aí). Desta forma recobramos a força, reformamos nossa bússola interna e reencontramos a estrela polar que dá a direção da nossa felicidade.

Nas palavras de Fernando Pessoa: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

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